Reflexos Espirituais de um Transplante de Coração

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“O primeiro transplante cardíaco no Rio Grande do Sul.”
“Transplante de coração. Medico diz que a cirurgia foi um sucesso técnico.”
“Diretor do Instituto de Cardiologia está entusiasmado com o resultado.”

Essas foram algumas das manchetes estampadas pela imprensa gaúcha nos dias que se seguiram ao transplante realizado em Ari Vacari Zagar, no Instituto de Cardiologia de Porto Alegre, em 1ºde junho de 1984, com o coração doado pelo jovem Roberto Igor Porto da Silva, acidentado gravemente de moto quatro dias antes.

Uma conduta altamente caridosa… em pauta um grande avanço da ciência …

Mas, nos bastidores do acontecimento que ocupava, merecidamente, várias colunas dos jornais, padecia um coração materno pela perda do filho querido, sofrimento agravado pelo transplante, que D. Izar Porto Silva, em sua simplicidade, não entendia com clareza.
Ela não havia sido consultada a respeito, pois a autorização do transplante partiu de sua filha Magali, que acompanhava muito de perto o irmão hospitalizado, e o grande movimento em torno da questão foi desfavorável para sua alma sensível.
Inclusive, a notícia do transplante, que sua filha pretendia retardar alguns dias, chegou-lhe aos ouvidos, pela imprensa, já no dia seguinte do falecimento de Roberto.
“Eu não descansaria enquanto não soubesse exatamente como foi o acidente e se meu filho aceitou ou não a decisão de Magali. ” – escreveu-nos D. Izar em atenciosa carta.
De fato, várias vezes ela deslocou-se de Porto Alegre a Uberaba, na expectativa de receber mensagem de Roberto pela psicografia de Chico Xavier.
Na quarta viagem, finalmente, seu filho comunicou-se transmitindo-lhe muito consolo e os esclarecimentos almejados.
Nessa carta, que a seguir transcrevemos, destacamos a interessante experiência de Roberto em seu reingresso no Mais Além, descrevendo seus padecimentos e ressaltando os reflexos benéficos decorrentes da doação de seu coração carnal:

Carta

Querida mãezinha Izar, aqui estou eu a pedir-lhe a bênção.
Os ponteiros do relógio giram na esfera a que se aprisionam, contando as horas, mas o nosso amor está acima do tempo.
Mamãe,pedi aos mentores amigos me permitissem contar-lhe como foi a minha queda com fratura do crânio.
Minha moto me obedecia sem relutância na sede de velocidade a que me habituara.
Sempre estimei passeios no campo ou a grande distância para sentir os dedos invisíveis do vento afagar-me o rosto.
Aquelas excursões a sós, procurando o ar puro, junto das árvores, eram para mim uma festa permanente.
As estradas abertas pareciam me convidar à renovação de meus próprios pensamentos.
A moto dialogava comigo sem palavras,atendendo-me os requisitos de movimento e largueza.
Foi assim que me acostumei a correr e a fazê-la veloz.
Não havia experimentado o perigo de colher alguém nas ruas ou nos caminhos.
E eu estava a toda velocidade possível, quando me capacitei de que um homem estava a minha frente, sem meios de se afastar, parecendo-me doente e necessitado de proteção.
Seguir adiante seria aniquilar-lhe o corpo e eu não queria isso.
Percebi que me entregaria a grande risco, contudo não vacilei.
Coloquei em ação toda a capacidade do freio de que dispunha e fiz uma parada instantânea.
Mal vira a máquina estancar sob a pressão de minha vontade firme e a velocidade repentinamente cortada, como que se vingou de mim, atirando-me para longe.
Caí desamparado e percebi que estava faceando o maior perigo de minha vida.
Não pude erguer-me.
Minha coluna parecia-me quebrada e a cabeça entrou empane, porque não mais consegui coordenar as minhas idéias.
Percebi que me apanhavam cuidadosamente, mas não pude discernir coisa alguma.
Estava reduzido a um trapo sanguinolento;entretanto, não ignorava que me conduziam a um hospital.
Ouvia vozes sem entendê-las, porque a minha própria vida estava se afastando de meu entendimento.
Escutei as palavras lavadas d pranto de nossa Magali, a quem os médicos endereçavam uma solicitação que não entendi.
Minha atenção esgotava-se na falta de resistência a que chegara.
Pensava em si, Mãezinha Izar, com ânsia de ouví-la perto.
Nada conseguia falar e quanto mais se acentuava a dor que eu sentia no peito, vi o papai ao meu lado, convidando-me a segui-lo.
Outros amigos o acompanhavam e me recomendavam saísse da apatia a que estava me acomodando, de modo a segui-los com urgência.
Mãe, deixei o meu corpo, como quem se afastava de uma roupa que se fizera imprestável, e logo de saída, conquanto me sentisse privado da visão, senti uma dor muito grande no tórax.
Os amigos de meu pai me solicitaram esquecesse o vigor daquela agulhada que me transtornava todo o ser; no entanto, eles se apressaram em me auxiliar com o magnetismo curativo e a dor desapareceu.
Soube mais tarde de que naquele momento eu tivera o coração do corpo físico arrancado para servir ao transplante que favoreceria um homem que se avizinhava da morte.
Meu pai informou que a medida fora autorizada por minha irmã e deu-me a conhecer a utilidade da providência, de vez que eu não mais recuperaria o corpo quebrado até a medula.
Explicou-me que era justo o trabalho que se fez, entregando-se o meu coração, que ainda pulsava, ao irmão doente que, com isso, poderia continuar vivendo, e esclareceu-me com tanta lógica que acabei aderindo, reconhecendo que a Magali, vendo-me quase morto, do ponto de vista físico, permitira que o meu coração servisse para alguém que necessitava dele.
Logo que me confessei agradecido, e satisfeito com a medida, notei que o coração em meu corpo espiritual pulsava forte e robusto.
Conto-lhe a minha experiência para que não se impressione com o que aconteceu, por quanto da queda de que fora vítima não mais levantaria.
Estou, Mãezinha Izar, satisfeito por ter tido oportunidade de doar o coração, que se abeirava da imobilidade, a uma outra pessoa que com isso se beneficiaria.
Segundo pode o seu generoso coração concluir, seu filho está feliz por ter encontrado o ensejo de cooperar em auxílio de alguém na hora da liberação que se achava prestes a se consumar.
Agradeça, mamãe, à Magali, por não haver vacilado no momento em que eu seria obrigado a largar o próprio coração ao endurecimento inútil, a praticar involuntariamente um ato que me fez mais confortado na Vida Maior, quando eu não mais teria oportunidade de revê-la jun- to a mim.
Estou reconhecido e pode crer que, se viesse a repetir-se a provação de que fui objeto, eu próprio teria pedido com acenos para que retirassem de meu corpo todas as peças que se mostrassem suscetíveis de prestar auxílio a alguém.
Sinto-me renovado e espero que o seu carinho esteja feliz com o gesto involuntário que me compeliu a aprender que toda a dádiva de nós mesmos obtém as melhores respostas da vida.
Mais uma vez peço-lhe agradecer a Magali o bom senso com que agiu em meu caso e, com as muitas saudades de sua presença em minha nova vida, beijo-lhe as mãos queridas.
O filho reconhecido de sempre, sempre seu Roberto.

Roberto Igor Porto Silva.

Notas e Identificações

1 – Psicografia de Francisco Cândido Xavier, em reunião pública do GEP, Uberaba, MG, na noite de 05-4-1985.

2 – Mãezinha Izar – D. Izar Porto Silva,residente à Rua Visconde Pelotas,185 – ap 303 – Porto Alegre, RS.

3 – A descrição do acidente, feita por Roberto Espírito, foi confirmada pela sua mãe.

4 – Escutei as palavras lavadas de pranto da nossa Magali – Naqueles momentos sua irmã lhe dizia que ele iria se recuperar do acidente.

5 – vi o papai ao meu lado – Seu progenitor, Tuyuty Jung Silva, desencarnou em 19-12- 1976.

6 – Mãe, deixei o meu corpo (…) e logo de saída (…) senti uma grande dor no tórax

– Como o processo desencarnatório não estivesse completo, ainda ligado ao corpo físico pelo fluídico’>cordão fluídico, Roberto sentiu reflexos da cirurgia.

7 – o coração em meu corpo espiritual pulsava forte e robusto – O corpo espiritual referido é o perispírito ou corpo perispiritual,que é também formado por órgãos(entre eles o coração), pois ele é o “molde fundamental” para a formação do corpo físico, em cada encarnação.

”Dentro das leis substanciais que regem a vida terrestre, extensiva às esferas espirituais mais próximas do planeta, já o corpo físico excetuadas certas alterações, impostas pela prova ou tarefa a realizar é uma exteriorização aproximada do corpo perispiritual, exteriorização essa que se subordina aos imperativos da matéria mais grosseira, no mecanismo das heranças celulares, as quais, por sua vez, se enquadram nas indispensáveis provações ou testemunhos de cada indivíduo.

” (Emmanuel, F.C. Xavier, O Consolador, FEB, Questão nº 30.)

(Ver também “Gênese dos órgãos psicossomáticos”, do Cap. IV, Primeira Parte, Evolução em Dois Mundos, André Luiz, F.C. Xavier e W Vieira, FEB.)

8 – Estou, Mãezinha Izar, satisfeito por ter tido oportunidade de doar o coração – Se o transplante não conferiu maiores vantagens ao enfermo receptor, que faleceu três dias após a operação, devido a complicações renais,o Dr. Ivo Nesralla, chefe da equipe cirúrgica, declarou à Revista Manchete (Rio de Janeiro, RJ) que o procedimento teve êxito técnico, enfatizando: “Se tivermos condições, faremos outra cirurgia idêntica amanhã mesmo.

“É um recurso derradeiro, mas que deve ser usado”

9 – Roberto Igor Porto Silva – Nasceu e desencarnou em Porto Alegre, respectivamente em 18-11-1959 e 01-6-1984.

Era funcionário de uma empresa e foi acidentado quando se dirigia ao trabalho habitual.

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